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O deslizamento do debate público para a comunicação privada no Brasil de Bolsonaro

Muriel Felten

Mestre em comunicação pública pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Possui graduação em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2011). Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Relações Públicas e Propaganda, atuando principalmente nos seguintes temas: comunicação, relações públicas, marketing digital, política e marketing.

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O debate público está no cerne do jogo democrático realizado entre a opinião pública e o Estado, mercado e mídias. A comunicação é de grande relevância social, uma vez que, a partir dela, podem ser firmadas as decisões que levam a sociedade a caminhar em direção à igualdade, à justiça e à liberdade, qualificando, assim, a democracia. Assim, observar quais são os temas acionados na comunicação de um governo nos permite entender quais são as estratégias de comunicação pública  agendadas no espaço público e    quais pautas ocupam a centralidade do debate promovido pelo Estado.

É inegável que, a partir da chegada das redes sociais, o espaço público e o diálogo que dele emerge ganharam novos contornos na democracia. As fronteiras entre a dimensão pública e a privada se tornaram ainda mais difusas, caracterizando o que Marques e Martino (2016) chamam de “mundo media”, em que uma nova faceta da realidade se estabelece e o que é publicizado passa por um processo de reciclagem dos materiais e de recursos, antes divididos em fronteiras mais bem sedimentadas. Assim, a interação direta, própria das redes, como uma experiência doméstica e fragmentada, pode não privilegiar os espaços de comunicação institucionais, já que, nesse caso, a relação se estabelece com um interlocutor abstrato.

Essa nova relação entre as dimensões pública e privada nas redes sociais pode ser considerada questão central para entender de que forma o governo de Jair Bolsonaro corrói o sistema democrático em suas bases, enfraquecendo espaços de diálogo autônomos, racionais e com vistas à cooperação e tergiversando sobre temas vitais para a sociedade, que são da competência do Estado, para pautar o debate com temas comportamentais, mais suscetíveis ao reforço ideológico defendido pelo governo. Ao estabelecer as redes sociais como canal principal de comunicação do governo com a sociedade, presidente Bolsonaro explora a audiência de seus perfis virtuais próprios, muito maiores do que a das redes institucionais, para promover a comunicação pública do governo. Apenas no Instagram, o número de seguidores somados dos três perfis que compõem o sistema de comunicação institucional – Governo Federal[1], SECOM[2] e EBC[3] – corresponde a 5% do número de seguidores do perfil de Jair Bolsonaro[4] . São 937 mil seguidores das redes institucionais frente a 18 milhões e 330 mil seguidores de Jair. Além disso, o engajamento médio das postagens do presidente na rede é mais que o dobro da média dos perfis institucionais. Enquanto o percentual de engajamento das publicações do presidente nas redes é de 5,97%, o dos perfis institucionais é de 2,36% (PINHEIRO, 2021).

Como parte da dissertação de mestrado de minha autoria, que buscou investigar as intervenções privadas na comunicação pública do presidente Jair Bolsonaro a partir da presença dos vieses moralista e religioso, foi realizada uma pesquisa das postagens de Instagram do perfil do presidente Jair Bolsonaro. O levantantamento teve por objetivo identificar os assuntos mais abordados pelo presidente, que pautam a comunicação pública que o governo realiza com a sociedade.

 

A Comunicação do presidente Jair Bolsonaro no Instagram

O mapeamento das temáticas presentes nas postagens do Instagram @jairmessiasbolsonaro, rede social com maior audiência entre as que o presidente possui perfil, foi feito a partir da leitura flutuante das 2097 postagens publicadas entre 1º de janeiro de janeiro de 2019 a 30 de junho de 2020.

Nesse universo, foram perseguidas as temáticas relacionadas a temas sensíveis, que se referem a comportamentos, modos de ser e de agir na sociedade,  e temas políticos, que mobilizam a discussão política. De forma resumida, aparesenta-se as temáticas selecionadas para a investigação:

    1. Temas sensíveis: Aborto, Ciência, Questões raciais, Pobreza/ miséria, Violência, Direitos humanos, Família, Gênero e sexualidade, Infância, Moral e costumes, Adversários, Questões indígenas, Questões religiosas e Questões sobre a mulher;
    2. Temas políticos: Brasil, Forças de segurança, Sistema Econômico, Regime Político, Políticas públicas – Comportamento e direitos humanos, Cultura, Educação/ ciência, Justiça e segurança, Meio ambiente – Pandemia, Presidência da república, Corrupção, Eleições, Notícias falsas, Mídias sociais/ internet, ideologia e internet.

Entre todas as postagens do período, 1225 se relacionavam com os temas de interesse da pesquisa. As postagens selecionadas foram classificadas a partir das temáticas com a ajuda do Software Nvivo, ferramenta de análise de conteúdo.

Temas sensíveis e temas políticos tiveram codificação múltipla, ou seja, o mesmo post poderia ser codificado com diversos temas. Juntos, somam 2194 referências, sendo 1480 políticos e 714 sensíveis. Considerando o número de posts codificados, 1225, temos a média de 79% de posts com múltipla contagem, ou seja, publicações em que são referenciados mais de um tema. O número aponta para a multiplicidade da comunicação do presidente Jair Bolsonaro, que faz uso de diferentes assuntos em uma mesma publicação.

 

Temas políticos

Os temas políticos dizem respeito à diversidade de assuntos que fizeram parte da abordagem da pesquisa dentro do espectro político. Foram codificados 1480 temas políticos na amostra analisada. O gráfico 1 ilustra essa abordagem nas postagens do Instagram @jairmessiasbolsonaro analisadas.

 

Gráfico 1 – Distribuição da codificação dos temas políticos presentes no Instagram @jairmessiasbolsonaro

Fonte: Elaboração própria (2021).

 

As políticas públicas somam 335 referências (22,7%) e contemplam as áreas de interesse da pesquisa em relação a ações do governo: cultura, comportamento e direitos humanos, educação/ ciência e justiça e segurança. O tema pandemia, que aparece logo em seguida e tem 297 referências (20%), foi considerado um tema à parte de políticas públicas por ser referente ao contexto social mais amplo. O terceiro tema mais acionado, presidência da república, está relacionado aos assuntos ligados, diretamente, à figura do presidente Bolsonaro, com 258 referências (17,4%).

As políticas públicas e a pandemia são temas de interesse público que demonstram a comunicação sobre as ações de governo a partir das redes do presidente. Juntas, elas correspondem a menos da metade dos temas políticos, revelando que os temas de interesse público disputam espaço com temas relacionados ao presidente e a seu posicionamento político e ideológico. Para entender qual o peso de cada tema desse grupo, considerado principal grupo de interesse coletivo, são detalhadas as ocorrências de cada área de políticas públicas, conforme o gráfico 2.

 

Gráfico 2 – Codificação do tema Políticas Públicas no Instagram (@jairmessiasbolsonaro)

Fonte: Elaboração própria (2021).

 

Entre as políticas públicas, o tema de Justiça e segurança recebeu 143 referências, demonstrando o grande foco do governo com o assunto. A área de educação-ciência teve 86 referências, 41% a menos. Justiça e segurança contemplou abordagens referentes à criminalidade, a drogas, encarceramento, armamento, Pacote Anticrime, estrutura, terrorismo e abuso de autoridade. Criminalidade teve o maior número de referências, 52, e reuniu as informações a respeito da queda dos crimes, de ações de combate à criminalidade e declarações a respeito do Código Penal. Em seguida, aparecem as menções ao Pacote Anticrime, do ministro Sérgio Moro, com 28 referências. Drogas e armamento são temas que aparecem em terceiro lugar, com 21 referências cada. Chama a atenção o destaque dado ao Pacote Anticrime, com divulgação de manifestações de apoio, esclarecimentos a respeito de itens previstos e propaganda exaltando as vantagens do pacote para a sociedade. Armamento também é tema recorrente, ocupando o mesmo espaço da divulgação sobre ações de combate ao tráfico de drogas.

Pandemia predominou no período de fevereiro a junho de 2020, quando foi a pauta central do Instagram do presidente. A divulgação de ações do governo de combate ao coronavírus é o subtema mais recorrente nas publicações relativas à pandemia, com 100 das 297 referências e, em muitos casos, aparece relacionado com outro subtema do grupo. Questão econômica também é seguidamente abordada, com 38 referências, e contempla empregos, fechamento do comércio e consequências da pandemia na economia. Hidroxicloroquina é o terceiro subtema mais abordado, com 28 menções, à frente de outros assuntos de grande interesse público na pandemia, como auxílio emergencial, protocolos sanitários, investimentos e testes.

O terceiro tema político com mais referências é Presidência da república, que reuniu os assuntos referentes à figura do presidente, como a vida familiar, doméstica, o atentado sofrido e as manifestações de apoio, entre outros. Esse tema mostra a vida do presidente e suas ações independentemente do cargo que ocupa, explicitando a presença da comunicação privada em meio à comunicação governamental. As publicações divulgando apoios espontâneos e manifestações organizadas somam 108 referências, mais de 40% do tema, e buscam demonstrar a popularidade de Jair Bolsonaro. A divulgação do crescimento das mídias sociais do presidente é o terceiro subtema mais recorrente, com 29 referências. Para cada número marcante nos seguidores de uma das páginas das redes sociais, o presidente faz uma publicação agradecendo o apoio e carinho das pessoas. Essa prática também se configura como demonstração de popularidade e revela que o presidente destina grande espaço para divulgar o apoio que recebe. Considerando o total de referências em temas políticos, os apoios, as manifestações e a divulgação do crescimento de suas redes sociais, juntos, correspondem a quase 10% do total e demonstram que a promoção pessoal de Jair Bolsonaro é uma das principais pautas da comunicação de seu Instagram.

 

Temas sensíveis

Os temas sensíveis dizem respeito ao conjunto de temáticas relacionadas a comportamentos e à autonomia moral do indivíduo. Ao todo, foram classificados 714 referências para temas sensíveis. O gráfico 3 apresenta o número de referências de cada temática:

 

Gráfico 3 – Distribuição de referências por tema sensível

Fonte: Elaboração própria (2021).

 

Os dois temas sensíveis predominantes na amostra analisada foram comportamento sobre adversários, com 256 referências (37,3%) e questões religiosas, com 159 referências (23,2%). Somados, representam 58,97% dos temas sensíveis abordados nas postagens do presidente. O comportamento referente à ciência aparece em terceiro lugar, com 75 referências, pouco mais de 10% do total de temas sensíveis, seguido por violência, com 64 referências, correspondendo a 9%. Comportamento sobre adversários, que diz respeito a atores desqualificados pelo presidente em seu Instagram e comportamento referente à ciência, correspondente a posicionamentos do presidente em relação a evidências científicas, foram considerados parte dos temas sensíveis por afetarem o direcionamento moral e comportamental da sociedade.

Comportamento sobre adversários foi classificado nos subtemas embate/conflito e institucional, para que fosse possível verificar em quais situações o presidente adota tom bélico para se referir aos adversários e quando adota postura institucional. O resultado está descrito no gráfico 4.

 

Gráfico 4 – Codificação dos subtemas de comportamento de Bolsonaro sobre os adversários no Instagram @jairmessiasbolsonaro

Fonte: Elaboração própria (2021).

 

O espaço ocupado pelo presidente em sua conta de Instagram para identificar os atores e personalidades com os quais tem relação de contrariedade se destaca entre os temas sensíveis. Percebe-se que em mais de 94,5% dessas referências o presidente adota o posicionamento de conflito e que em apenas 5,5% das vezes adota postura institucional. A identificação desses dados permite afirmar que, nesse recorte, o presidente Jair Bolsonaro ignora o princípio da impessoalidade, uma vez que encara de forma pessoal as divergências políticas, adotando linguagem chula e ofensiva para se dirigir aos adversários diversas vezes.  Exemplo é o POST 13[5], em que se refere a Fernando Haddad:

Haddad, o fantoche do presidiário corrupto, escreve que está na moda um anti-intelectualismo no Brasil. A verdade é que o marmita, como todo petista, fica inventando motivos para a derrota vergonhosa que sofreram nas eleições, mesmo com campanha mais de 30 milhões mais cara. – Eles procuram e criam todos os motivos possíveis para estarem sendo rejeitados pela maioria da população, só não citam o verdadeiro: o PT quebrou o Brasil de tanto roubar, deixou a violência tomar proporções de guerra, é uma verdadeira quadrilha e ninguém aguenta mais isso!

O segundo tema sensível com maior ocorrência, questões religiosas, foi classificado em quatro subtemas, Deus/Cristo, símbolos religiosos, autoridades/ instituições religiosas e rituais religiosos. O resultado está descrito no gráfico 8.

 

Gráfico 1 – Codificação dos subtemas de questões religiosas no Instagram @jairmessiasbolsonaro

Fonte: Elaboração própria (2021).

 

As questões religiosas correspondem a 22,65% dos temas sensíveis e pouco mais de 7% do total de temas codificados. As menções a Deus, Jesus Cristo e outras divindades permeiam as postagens, inseridas em outros assuntos abordados ou mesmo sendo o tema central do post, e correspondem a 34,6% das referências em religião. Em seguida, aparecem os símbolos religiosos, como versículos bíblicos, imagens de cruzes, evangelhos, etc., com 32%. A presença de Igrejas e pastores, padres e outras lideranças do segmento acumularam 28 referências, cerca de 17,6% do total e, logo atrás, a divulgação de cultos, missas e outros eventos e rituais relacionados à religiosidade, com 11%. Percebe-se que as questões religiosas têm espaço e importância na comunicação verificada a partir do Instagram de Jair Bolsonaro, que procura inserir a religiosidade na estratégia de comunicação do perfil presidencial.

Terceiro tema com mais ocorrências em temas sensíveis, comportamento referente à ciência poderia ser um indicador positivo para a comunicação presidencial e, por conseqüência, governamental, se não fosse o teor das publicações. A pesquisa demonstrou que, quando se refere a evidências científicas, Jair Bolsonaro se posiciona contrário ao que a ciência comprova ou publica dados científicos inverídicos em 76% dos casos, e em apenas 16% das declarações fica ao lado da ciência, rompendo declaradamente com a racionalidade balizadora da comunicação pública e exigida pela democracia. O comportamento do presidente em relação à ciência atua tergiversando a verdade, ao negar a ciência como fonte crível de justificação da realidade. Um dos posts que evidencia essa distorção da ciência é o POST 1071[6]:

Segundo o CEO Fernando Parrillo, a Prevent Senior reduziu de14 para 7 dias, o tempo de respiradores e divulgou hoje, 1:400 da manhã, o complemento de um levantamento clínico feito: de um grupode de 636 pacientes acompanhados pelos médicos, 224 não fizeram uso da hidroxicloroquina. Destes, 12 foram hospitalizados e 5 faleceram. Já dos 412 que optaram pelo medicamento, somente 8 foram internados e, além de não serem entubados, o número de óbitos foi zero. O estudo será publicado em breve.

Ao analisarmos os resultados numéricos do levantamento, fica evidente o protagonismo que temas sensíveis, ideológicos e privados ocupam no governo. As referências relacionadas aos adversários, com 256 ocorrências, superam em três vezes as temáticas relacionadas à educação, por exemplo. Juntas, questões religiosas e comportamento referente a adversários têm mais ocorrências do que todo o grupo de políticas públicas, contemplado por educação, segurança, cultura, direitos humanos e meio ambiente.

Sob outra perspectiva, podemos comparar temas políticos relacionados à ideologia a temas de interesse público. Eleições, Sistema econômico (comunismo e capitalismo), Corrupção, Regime político (ditadura e democracia), Ideologia (direita e esquerda), Notícias falsas e Brasil (patriotismo, soberania nacional, globalismo, futuro do país) têm, juntas 335 ocorrências, mesmo número que o grupo de políticas públicas.  Sob outra perspectiva, a grande incidência de publicações relacionadas à vida de Jair Bolsonaro, no tema Presidência da República, demonstra a dificuldade em delimitar a separação entre público e privado nas redes sociais.

Percebe-se, a partir da investigação realizada, que, ao levar a centralidade da comunicação do governo para uma arena pública com características diretas e personalizadas, o presidente desliza o agendamento do debate dos temas vitais à sociedade, que impactam diretamente no cotidiano e na vida das pessoas e, que, por isso, exigem soluções do Estado, para temas comportamentais e ideológicos e que dão margem para diferentes perspectivas a partir da bagagem cultural, educacional e religiosa de cada indivíduo, advindas da dimensão privada, e que, por isso, são mais suscetíveis ao reforço ideológico que o governo pretende impor.

 

Considerações finais

Considerando a análise dos temas mais acionados, entre sensíveis e políticos, é possível afirmar que a comunicação do presidente Jair Bolsonaro utiliza a nova configuração da comunicação facilitada pelas redes sociais para reiterar o discurso dual que caracteriza permanente conflito e mantém seus apoiadores adeptos aos posicionamentos presidenciais a partir do apelo emocional, como o medo e o ódio, diminuindo a possibilidade de espaço para o diálogo e questionamento de certezas.

A perspectiva privada está presente a partir do viés religioso, que afronta o Estado laico, e moralista conservador, baseado em valores familiares, culturais e particulares. O movimento difere de governos anteriores tanto no objeto quanto no modo em que se apresenta. A sociedade costumava identificar como elemento da dimensão privada nos governos a presença de interesses econômicos, relacionados a grandes conglomerados e aos políticos, e que eram gerenciados de forma velada, ou seja, estavam sujeitos ao constrangimento frente à opinião pública. O governo de Jair Bolsonaro subverte essa lógica e insere um elemento privado de outra ordem e de maneira explícita na comunicação governamental. Esse novo comportamento, somado ao fato de a dimensão moralista ter aderência em grande parcela do público, gera um estranhamento que torna sinuoso o caminho para identificação e crítica dos problemas que podem surgir a partir dessa intervenção privada na comunicação pública. O moralismo relacionado a comportamento acarreta outro efeito favorável ao governo, que é o de tornar a divisão na sociedade ainda mais marcada, acentuando a polarização.

A comunicação direta é uma das características apontadas por Rosanvallon (2020) como constituinte do populismo moderno. Essa perspectiva se insere numa ideia de renovação democrática, em que o princípio liberal-representativo, que previne a tirania da maioria, outorgando um lugar central à autonomia das pessoas, é objeto de críticas segundo as quais os meios perturbam a formação da vontade geral e não possuem legitimidade moral, pois estariam contaminados por interesses particulares. A democracia, nesse contexto, adquire caráter polarizado, já que as eleições se impõem como único meio da expressão democrática. A dinâmica das redes sociais favorece o desenvolvimento dessa distorção da democracia, já que os próprios algoritmos se encarregam de facilitar apenas as conexões de visões de mundo semelhantes, formando as chamadas bolhas digitais, o que colabora ainda mais para enfraquecer o debate livre e a troca de ideias plurais.

Com espaços de manifestação mais complexos e híbridos, as pautas comportamentais e culturais disputam visibilidade com aquelas ligadas ao funcionamento essencial da coletividade e que configuram, dessa forma, temas vitais para a sociedade. A pesquisa identificou que os vieses moralista e religioso estão presentes na comunicação do governo com o objetivo de conformar um novo quadro de mundo, dissociado de aspectos basilares que nortearam o desenvolvimento social até então. Nessa nova visão, o interesse público deixa de ser a prioridade para dar lugar à ordenação moral de justificativa religiosa sobre comportamentos e formas de agir.

A interação comunicativa do mundo simbólico propõe um debate coperativo com vistas ao consenso e à solução dos conflitos entre indivíduos autônomos presentes no espaço público. O tema que mobiliza essa argumentação cooperativa deverá ser sempre um tema que diga respeito à coletividade e que estabeleça de modo central, tangível e concreto. Ao captar as novas vias de verdade que se desenvolvem nas redes sociais e explorar na comunicação pública do governo o posicionamento privado sobre questões morais e religiosas como forma de gerar identificação e adesão dos públicos dessas bolhas, o presidente substitui o lugar central de temas que estão sob gerenciamento governamental para temas culturais e emocionais. Trata-se da subversão, em essência, do princípio do primado do público.

O que Bobbio (1987) chama de “a soma dos bens individuais” que não pode se impor ao bem público é traduzida, nesse caso, pela importância que os vieses moralista e religioso têm na vida de um grande número de pessoais, razão pela qual o debate em torno desses temas adquire relevância e causa grande adesão. Contudo, ainda que os temas tenham peso na orientação comportamental das pessoas, não deixam de ser formados por questões ancoradas em individualismos autocentrados e associativismos fragmentados. A relação entre poder do Estado e sociedade se configura a partir do acionamento da publicidade frente à crítica e ao controle dos cidadãos. A perda de espaço de temas vitais para a abertura a temas sensíveis na comunicação de Jair Bolsonaro configura, dessa forma, a privatização da função do Estado, na medida em que o governo deixa de cumprir o papel de publicização central sobre ações a respeito de questões que incidem diretamente na vida social, o que permitiria abrir espaço para o controle da sociedade a partir do debate público, para promover discursos dogmáticos sobre questões que dizem respeito à dimensão privada da comunicação, inculcando percepções de mundo baseadas em crenças e valores de grupos específicos. Em última análise, a estratégia diminui o foco da crítica ao governo sobre o cumprimento da sua função, reforça a polarização e recoloca na centralidade do espaço público discussões já superadas pela sociedade, retardando  definições que direcionam a coletividade para a emancipação social, o que tem como resultado o enfraquecimento da democracia.

 

Bibliografia

BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. 14. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2007.

ROSANVALLON, Pierre. El siglo Del populismo.Barcelona: Galaxia Gutenberg SL, 2020.

MARTINO Luís Mauro Sá; MARQUES Ângela Cristina Salgueiro. Ética, mídia e comunicação: Relações sociais em um mundo conectado. São Paulo: Summus Editorial, 2018.

PINHEIRO, Muriel Felten. Intervenções privadas na comunicação pública do governo de Jair Bolsonaro: os vieses moralista e religioso. 2021. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Programa de Pós-graduação em Comunicação,  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021.

[1]GOVERNO FEDERAL. Disponível em: https://www.instagram.com/governodobrasil/. Acesso em 08/04/2021

[2] SECRETARIA ESPECIAL de Comunicação Social da Presidência da República. Disponível em: https://www.instagram.com/secomvc/. Acesso em 08/04/2021.

[3] EMPRESA DE COMUNICAÇÂO Púlica do Brasil. Disponível em: https://www.instagram.com/ebcnarede/

Acesso em 08/04/2021.

[4] JAIR BOLSONARO. Disponível em https://www.instagram.com/jairmessiasbolsonaro/. Acesso em 08/04/2021.

[5]BOLSONARO, Jair. Haddad, o fantoche... 05 jan. 2019. Instagram: jairmessiasbolsonaro. Disponível em: https://www.instagram.com/p/BsQcZA_g_VQ/. . Acesso em: 20 jan. 2021.

[6] BOLSONARO, Segundo o CEO Fernando Parrillo… 20 abril 2020. Instagram: jairmessiasbolsonaro. Disponível em: https://www.instagram.com/p/B_JaHabn1jA/. Acesso em: 20 jan. 2021.