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Mobilização e redes sociais no Brasil: da crise da Democracia ao populismo de Bolsonaro

Andressa Liegi Vieira Costa

Doutoranda e Mestre em Ciência Política pelo Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa. Bacharel em Ciências Sociais pela UFRGS e em Relações Internacionais pela ESPM. Pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre a América Latina (Nupesal/UFRGS) e do Projeto Manchetômetro do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP/UERJ).

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INTRODUÇÃO

A democracia brasileira é recente, e desde que estabelecida encontra diversos desafios para sua consolidação, primeiramente de cunho social, econômico e político. Entretanto, tais entraves restringem também o exercício de direitos, a construção de uma cidadania efetiva e de uma participação inclusiva. Dessa forma, por mais que haja valorização da democracia por grande parte dos brasileiros, a falta de capacidade do sistema político em responder as demandas sociais não vai de encontro às expectativas da população, acarretando em desconfiança nas principais instituições de representação democrática e insatisfação e desencanto generalizado com a democracia.

A partir da crise financeira mundial de 2008, observamos uma onda global de movimentos e protestos que criticavam os modos de fazer política, e mesmo a lógica capitalista, pela falta de soluções para os anseios da população. Contudo, ainda que contestassem as formas de representação política democrática, se viram limitadas quanto ao encontro de alternativas para fora do eixo institucional. Essa onda alcançou o Brasil com as Jornadas de Junho de 2013. Entretanto, os grupos que obtiveram mais sucesso em vender soluções políticas foram os setores conservadores e de direita. Nesse vácuo, conseguiram materializar as insatisfações generalizadas, e com grande contribuição da mídia tradicional, apontar culpados e por uma cara a todos os problemas, mirando na corrupção e no PT, especialmente em um cenário de Operação Lava Jato.

Partindo dessa construção, e com grande auxílio da internet e das redes sociais, conseguiram mobilizar cidadãos, que antes não se envolviam na política por conta da descrença, em tornos de pautas e narrativas produzidas por esses setores e operacionalizadas por novos atores, como os movimentos MBL e VemPraRua. Essa mobilização, realizadas através de pautas morais e ideológicas, ao ser organizada através de forças e práticas anti-democráticas, refletiu tal lógica no público mobilizado, e assim observamos as eleições de 2014, e os protestos subsequentes que acarretaram no processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Jair Bolsonaro conseguiu colher os frutos dos processos desenvolvidos nos anos anteriores ao eleger-se como presidente em 2018. Utilizou-se das redes sociais e estratégias de comunicação e mobilização política capazes de cooptar os setores da população que buscavam por soluções. Ao criar uma retórica de nós versus eles, criando inimigos públicos, e apresentar-se como alternativa para todos os problemas latentes na sociedade, não apenas chegou ao poder, como também trouxe novas configurações para o modo de fazer política. Assim, esse artigo propõe-se a compreender como o processo de mobilização política e ascensão das redes sociais associa-se a democracia, além de pensar em futuros desafios.

 

A DEMOCRACIA E SUAS CRISES

Para começarmos a pensar sobre as questões propostas na introdução deste artigo, é importante que, primeiro, abordemos algumas questões sobre a democracia.

A democracia brasileira é recente, nascida da terceira onda de democratização[1], ocorrida entre 1974 e 1990, quando mais de trinta países passaram por transições democráticas em um efeito “bola de neve. Ainda que essa onda tenha gerado otimismo e expectativas em relação à expansão da democracia a nível mundial, a realidade observada por muitos destes regimes não foi a que se esperava, uma vez que o processo de consolidação democrática esbarrou em diversos desafios sociais e econômicos.

Na década de 1930, a população da América Latina era majoritariamente rural, com apenas 15% vivendo em cidades com mais de vinte mil habitantes, proporção que alcançou os 76% no final do século. Já entre 1950 e 2000, a população da região passou de 166 para 516 milhões, com países como o Brasil vendo suas populações quase quadriplicadas no período. Essas mudanças por si só já trouxeram consequências sociais, políticas e econômicas em toda a região. Soma-se a isso um passado em comum com períodos de colonialismo, oligarquias, dependências estrangeiras e regimes autoritários, os quais não apenas acarretam em outras consequências, mas também impactam na construção da cultura política desses países. Embora as aberturas políticas tenham trazido uma valorização da democracia, o cenário de desigualdade social resultou também em certo desencanto em relação a ela por alguns. Ademais, a imposição da ideologia neoliberal restringiu a democratização social, política e econômica da região.[2]

Assim, tais democracias, pensadas a partir da participação popular, uma vez que a existência de uma cidadania igual e inclusiva favorece a consolidação democrática[3], traduziram-se em muitos Estados incapazes de garantir o exercício de direitos por diversos segmentos sociais, uma vez que as instituições democráticas não conseguiram garantir elementos essenciais como segurança material, educação e acesso à informação, resultando em democracias sem cidadania efetiva em amplos setores da sociedade.[4]

Dados elementos encadeiam diversas crises: de credibilidade do sistema político, marcada por crescente desafeto e desconfiança nos partidos políticos; do Estado em cumprir com os compromissos do welfare state, um dos pilares da legitimidade política[5]; de legitimidade da democracia, dada a restrição de direitos civis e políticos, da competição política e da participação dos cidadãos; e, por fim, da democracia em si, quando do declínio de eficácia institucional e da mudança nas relações entre sociedade civil, partidos e instituições do governo[6].

No caso brasileiro não é nova a tendência de alta desconfiança em relação ao governo e seus representantes, e de ceticismo político. Uma vez que regimes democráticos coexistem com forças oligárquicas, vê-se acentuada a desigualdade e exclusão social em contraste ao favorecimento das minorias no poder, criando uma visão de que as elites políticas são corruptas e não trabalham para o bem do país, o que gera descrença dos cidadãos em relação às instituições.[7] Gera-se, juntamente, insatisfação com a democracia, uma vez que não se observam direitos de representação e participação dos cidadãos funcionarem como canais efetivos[8], e as estruturas formais da democracia não são capazes de resolver a desigualdade e exclusão social[9].

Através do que foi tratado nessa sessão, podemos compreender como a democracia brasileira, assim como a de muitos países da América Latina e outras regiões do globo, não apenas é recente, como também esbarra em diversos entraves de cunho político, social, econômico e cultural. Ainda que houvesse uma valorização da democracia por grande parte dos brasileiros, suas instituições não foram capazes de entregar a qualidade de vida e exercício de direitos esperados, gerando frustação. Durante os 21 anos de ditadura militar no Brasil, os cidadãos tiveram grande parte de seus direitos e liberdades interrompidos, de modo que a volta da democracia e a Constituição de 1988 trouxeram grandes expectativas sobre o que estaria por vir. Ainda que os movimentos sociais e as Diretas Já tenham pressionado pela abertura política, este processo não se deu por via popular.

A partir do que foi abordado, podemos então entender o posicionamento dos cidadãos perante a democracia e o sistema político, que será importante para observar os desdobramentos das novas mobilizações que surgem posteriormente.

 

(NOVAS) MÍDIAS, INTERNET E MOBILIZAÇÃO: A BUSCA POR ALTERNATIVAS

As transformações econômicas e tecnológicas das últimas décadas acarretaram também em mudanças sociais. Dada a deslegitimação das instituições e a desestruturação de organizações, a identidade tem se tornado a única fonte de significado social, de modo que, neste contexto, as pessoas tendem a buscar e se reagrupar em tornos dessas identidades, sejam elas coletivas ou individuais.[10] As novas tecnologias criaram novas formas de sociabilidade para além das estruturas institucionais, gerando assim grande potencial de mobilização da sociedade civil.[11]

A crise financeira global de 2008 gerou forte impacto nas classes baixas e médias em grande parte das democracias ocidentais. Em consequência, em 2011 protestos foram registrados a nível global contra a desigualdade econômica e as medidas de austeridade resultantes da crise. Movimentos como o Occupy nos EUA e os Indignados na Espanha, representaram novas formas de participação política – com protestos, ocupações, assembleias etc. – mais diretas e colaborativas. Estes operaram na esfera extra-institutional da política, apresentando-se como um desafio às estruturas formais da democracia. Ademais, refletiram e reforçaram a crise de legitimidade, e ainda que tenham apresentado configurações distintas de acordo com os países, geraram efeitos políticos para a democracia representativa[12].

É importante observar como, ao trazer críticas duras e pontuais sobre o funcionamento da democracia, resultaram também em consequências políticas. No caso do Movimento dos Indignados (15M), observamos a criação do Podemos, em 2014, inicialmente uma iniciativa política que prometia protagonismo popular e propunha uma organização horizontal, tal qual a do 15M, com a utilização de uma plataforma online para construção do seu programa[13], culminando em um novo partido político de esquerda. Cabe ressaltar como apesar da inovação trazida pelo movimento, a via encontrada de ação foi a inserção na esfera da política institucional como forma de buscar representação e expressão política, e se opor aos partidos tradicionais, o que nos leva a refletir sobre os possíveis caminhos da mobilização através do ambiente digital e as limitações da busca por novas alternativas ao atual formato democrático.

Em 2013, presenciamos no Brasil as Jornadas de Junho, uma onda de protestos que levou às ruas milhões de pessoas. Inicialmente marcado por insatisfação da esquerda brasileira com as políticas urbanas acabaram por catalisar a insatisfação da direita.[14] Surgiram de convocações do Movimento Passe Livre (MPL) como reação ao aumento das tarifas de transporte, e visavam discutir a mobilidade urbana como meio de inclusão social.[15] Contudo, diferente das manifestações observadas no começo do mês, entre 17 e 20 de junho as dinâmicas do movimento foram alteradas, com a perda de controle do MPL, passando da liderança de grupos de esquerda para nenhuma liderança, com a proibição de bandeiras de partidos, marcando a passagem da pluralização para a polarização.[16] As manifestações tiveram também protagonismo dos jovens, antecedidas por movimentos com grande apoio nas redes sociais, amplamente utilizadas para sua organização.[17]

Sua massificação deu-se através dos meios de comunicação de massa, que tornou o descontentamento em uma simplificação das insatisfações, expressas por meio de indignação generalizada com o sistema político. A mudança ideológica foi acompanhada pela passagem de movimento apartidário para antipartidário, sentimento que, juntamente com a anti-corrupção, foi cooptado pela mídia e resignificado como anti-PT.[18] Assim, emergiu uma nova lógica de engajamento individual dos participantes, em manifestações convocadas por diversos grupos sociais e políticos, marcando uma transformação do ativismo nas ruas.[19]

Assim, abriu caminho para a reorganização das forças conservadoras na internet e nas ruas. Diversos símbolos emergiram dos protestos, representando frustrações coletivas da classe média e trabalhadora devido à desigualdade econômica, serviços e infraestrutura públicos precários e um sistema político corrupto e não responsivo.[20] Enquanto evidenciaram um descontentamento geral, as manifestações apresentaram expressões multifacetadas, não só com reinvindicações de elementos mais comuns, como também com reapresentação de conteúdos conservadores – como o antipartidarismo, o nacionalismo exacerbado, e a retomada de uma extrema-direita. Assim como em outros protestos globais mencionados anteriormente, as manifestações foram caracterizadas por um sentimento anti-institucional, e sua falta de demandas claras sugere que tiveram um caráter de motivação emocional. [21]

Em 2014, além dos protestos que questionavam as consequências da realização da Copa do Mundo no país, observamos uma nova configuração da política brasileira[22], com a expansão e consolidação de novos atores, fruto dos protestos do ano anterior, como o MBL e o VemPraRua. Com uma forte polarização em relação ao governo, as publicações nas redes sociais focavam-se em Dilma Rousseff e na corrupção, temas que acabaram sendo centrais no debate eleitoral. Nas eleições, foi a primeira vez que a classe média representava a maior parte do eleitorado (65%), na qual havia grande divisão.

Nos anos seguintes, 2015 e 2016, a crise política associada aos escândalos de corrupção (especialmente relacionados à Operação Lava Jato), somou-se com uma queda no cenário econômico. Daí, surgiram duas correntes de protestos: a favor do impeachment de Dilma Rousseff, e com forte apelo anti-corrupção, e contra seu impeachment, somadas também às lutas feministas, trabalhistas e do movimento negro.[23] Os participantes dos movimentos pró-impeachment tinham perfil de alta renda e nível de educação, envolvendo todas faixas etárias, porém com idade média de 40 anos, diferentemente do perfil observado em 2013. Os novos grupos organizadores utilizaram-se da mobilização pelas redes sociais através do apelo a valores morais e contra a corrupção.[24]

Nos protestos pelo impeachment, 96% dos manifestantes declaravam insatisfação com o sistema político, com 73% de desconfiança nos partidos e 70% nos políticos.[25] Algumas tendências observadas nesse movimento já apontavam para o que vemos no cenário atual, com Jair Bolsonaro. Havia já uma desconfiança crescente na imprensa tradicional e crença em boatos falsos difundidos por fontes de informação sem verificação. Além disso, observou-se divisão entre o apoio a soluções antipolíticas ou de aprofundamento da democracia: enquanto 56% acreditava que para solucionar a crise era necessário alguém fora do jogo político, 28% apoiava a entrega do poder para os militares, e 64% para um juiz honesto; 77% acreditavam na ampliação de mecanismos de participação e 59% no fortalecimento de ONGs e movimentos sociais.[26]

De acordo com dados do Latin America Public Opinion Project (LAPOP), entre 2012 e 2017, o apoio ao governo caiu de 59,9% para 10,6%, e o apoio à democracia de 69,1% para 52,4%. Ademais, a confiança nas instituições políticas representativas (Congresso, presidente, eleições e partidos políticos) seguiu a mesma tendência, com a maior queda em relação à presidência, de 59,4% de confiança em 2012 para apenas 14,5% em 2017. Em oposição, as Forças Armadas e a polícia ganharam confiança no período, com a primeira chegando à 70,6% em 2017.

No caso brasileiro, as crises de representação, de legitimidade e da democracia em si, foram acentuadas durante o período, porém resultaram em maior engajamento e mobilização dos cidadãos, motivados pela indignação e desejo de demonstrar suas insatisfações com o sistema político. Entretanto, esta mobilização não foi baseada no civismo e em valores democráticos. Assim, enquanto os cidadãos passaram a se sentir mais interessados pela política e tornaram-se mais participativos, através das redes sociais e dos protestos, esse processo foi marcado pela polarização política, por uma reação a valores progressistas, expressa pelo apelo moral, e pelo anti-petismo. A mídia teve um papel central, gerando engajamento através de críticas ao sistema político, além de criar uma indignação seletiva, na qual toda a insatisfação foi direcionada ao PT e a corrupção associada exclusivamente a tal partido.

Assim, percebemos, primeiramente, que tais acontecimentos do país surgem num contexto global de descrença no sistema político e insatisfação com a capacidade da representação democrática em resolver problemas sociais, políticos e econômicos. Nesse período, e com as novas possibilidades de participação através das redes sociais, houve uma grande mobilização dos cidadãos, levando às ruas grupos não tradicionalmente mobilizados no país, antes passivos na vida pública e em assuntos políticos, devido à descrença generalizada. Dessa forma, e conforme visto na seção anterior, cidadãos já tradicionalmente frustrados com o sistema político finalmente se viram capazes de ativamente participar da vida política. Entretanto, resultou em uma mobilização pensada e engajada por setores conservadores e pela mídia tradicional, os quais obtiveram sucesso em cooptar uma massa insatisfeita, criar bodes expiatórios culpados pela crise e vender soluções políticas anti-democráticas.

 

REDES SOCIAIS, POPULISMO E NOVOS DESAFIOS À DEMOCRACIA

O papel da mídia em impactar a opinião pública tem aumentado nas últimas décadas, tendo forte relação com o surgimento e consolidação das tecnologias de informação e das informações digitais. Assim, observamos um processo de midiatização[27], no qual a mídia se integra nas esferas política, social, econômica e cultural. A sociedade da informação transformou o lugar da política em algo difuso, uma vez que a adoção em massa de tecnologias de comunicação enfraqueceu o monopólio do Estado sobre a difusão da informação.[28] As relações sociais, igualmente, tonaram-se híbridas entre o contexto online e off-line. Porém, o ambiente digital apresenta características próprias, e que têm capacidade de impactar a dimensão emocional dos indivíduos.

A internet e as redes sociais servem como canais para expressar emoções, e o contágio emocional em grande escala, inclusive, auxilia na difusão viral de conteúdos.[29] Dada suas características de abertura, compartilhamento e construção colaborativa, possibilitam que os usuários transitem entre posições de criadores e receptores de significado, além de tornar possível com que organizações, figuras políticas e cidadãos compartilhem informações diretamente às pessoas. Por outro lado, permitem também que a exposição a argumentos divergentes seja evitada, através dos processos de polarização ou reforço de opinião. Em grupos pré-formados, há uma tendência de homogeneização de grupos opostos, os quais são filtrados através de estereótipos negativos.[30] A partir disso, podemos pensar na forma como as redes sociais, com seus algoritmos e filtros, mudaram tanto as lógicas de interação social, quanto de consumo e produção de informação.

Nos últimos anos, tem-se observado uma tendência a nível mundial de apoio a líderes populistas, tendo especial atenção a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos em 2016. Essa onda reflete um efeito de backlash cultural, como resposta negativa à emergência de valores progressistas, juntamente a um aumento da segurança econômica e de desigualdades crescentes.[31] Devemos levar em conta os processos de precarização nos mercados de trabalho associados às transformações do capitalismo[32], dos quais surgem o precariado[33]. Assim, esse grupo gera também pressão por respostas do sistema político à situação de precariedade.

As configurações contemporâneas do populismo testam uma nova forma de representação, baseada em uma relação direta entre o líder e o que este considera o “povo”, tendo a audiência um senso de autoridade distinto e mais amplo. Além disso, mira em entidades intermediárias, como os partidos políticos e a mídia, criando uma política da parcialidade.[34] A internet consegue funcionar como espaço para o consumo e reprodução de visões populistas, hierarquias e relações assimétricas de poder.[35]

No Brasil, Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018 com apenas oito segundos de HGPE, baseando, assim, sua campanha na utilização das redes sociais e de fake news, que emergiram como uma ferramenta de marketing e campanha política.[36] Assim, foi ele quem colheu o fruto dos processos que analisamos anteriormente, se mostrando como alternativa em uma retórica anti-sistêmica. Ao apresentar seus oponentes como inimigos (não apenas políticos, mas também no aspecto religioso e moral), conseguiu simplificar a solução para todos os problemas com a eliminação de tudo que se relacione a esses inimigos, moralizando o debate púbico com um discurso centrado em elementos como o patriotismo, anti-comunismo, anti-esquerda e anti-intelectualismo. Durante a campanha eleitoral de 2018, os assuntos que mais repercutiram no Twitter envolviam as temáticas de corrupção, segurança pública e economia[37], apontando para os principais anseios dos brasileiros no período.

Precisamos levar em conta também o elemento da desinformação e do uso de fake news no ambiente digital. Há uma diferença entre os termos misinformation e disinformation, uma vez que um aponta para informações falsas criadas sem intenção de causar danos, e o outro para informações criadas para deliberadamente prejudicar pessoas, grupos ou organizações. Assim, a circulação de fake news representa uma estratégia organizada capaz de deslegitimar oponentes políticos e atores como a mídia tradicional. Adicionalmente, em cenários de alta polarização, a sua utilização reforça a construção da lógica conflituosa, pela via ideológica e psicológica, ao mirar nas figuras “inimigas”.

No caso brasileiro há algumas características que facilitam a disseminação desse tipo de conteúdo. De acordo com a TIC Domicílio de 2018, 70% dos brasileiros tinham acesso à internet, com 97% utilizando a internet pelo celular e 56% exclusivamente por este meio. Os dados de acesso à internet evidenciam as desigualdades do país, ao exemplo de que o uso da internet exclusivamente pelo celular sobe para 78% entre famílias com renda de até um salário mínimo por mês. Ademais, a política de zero rating, com acesso à internet gratuito, utilizada por grandes companhias como o Facebook, em parceira com companhias telefônicas, para instigar um maior uso de suas plataformas, limitam o consumo de informações completas, uma vez que só se tem acesso ao conteúdo recebido gratuitamente nos aplicativos das redes sociais, sem possibilidade de verificação do conteúdo e de acesso a outros pontos de vista em páginas externas para aqueles que dependem dessa gratuidade.

A comunicação política apresenta igualmente papel central, e a de Jair Bolsonaro assemelha-se à de Trump, a partir de cinco estratégias centrais. Primeiro, através da comunicação direta por meio de conta pessoal em redes sociais, consegue acabar com a confiança na mídia. Segundo, utilizam-se de campanha permanente, na qual as atividades de governar e fazer campanha não se separam e giram em torno do culto a uma imagem política. Terceiro, a construção da imagem de homem simples cria uma relação de empatia com o povo, e vai de encontro à política do entretenimento e à despolitização da política. Quarto, a utilização de uma retórica incendiária, por meio de linguagem divisiva e discurso de ódio, relacionadas com o extremismo violento. Por fim, todos os elementos juntos resultam na última estratégia, que é o ganho de cobertura midiática gratuita, uma vez que suas ações capturam a atenção da mídia.[38]

Em outubro de 2018, mês das eleições, Bolsonaro atacou a mídia em média dez vezes por semana, com um total de 129 ataques durante o ano.[39] Nas redes sociais, utiliza-se da imagem de homem simples ao fazer vídeos e lives de sua própria casa, com cenários nos quais sempre aparecem objetos como copos de plástico, pratos usados, botijões de gás etc., mas com frequência com uma bandeira do Brasil ao fundo. Em alguns vídeos, aparece até mesmo fazendo café da manhã ou comendo um pão sem prato, em contradição à comunicação política tradicional.[40] Ademais, recordemos de seu comício como candidato em que segurou uma arma e disse a seus apoiadores “vamos fuzilar a petralhada”, mais tarde afirmando ser uma piada.[41]

O relatório especial do Manchetômetro (LEMEP/UERJ)[42], sobre a atividade da base bolsonarista no Facebook entre 2020 e 2021, traz algumas considerações importantes sobre o que é produzido e repercute dentro desse grupo na rede, assim como as estratégias empregadas. Observamos que o grupo bolsonarista na rede (constituído, essencialmente, por Carla Zambelli, Bia Kicis, Filipe Barros, Carlos Jordy, os três fillhos de Bolsonaro, Eduardo, Flávio e Carlos, e o próprio presidente – que são os que mais engajam na rede) apresentam a mesma base de conteúdos, centrados em apelos religiosos, constante referência à família e ataques diversos, à mídia, à esquerda, a governadores (especialmente após a pandemia), e a outros atores com maior frequência, como o STF, Lula e João Dória. Destaca-se também, que as publicações com mais repercussão de Jair Bolsonaro foram fotos com a filha, sem nenhuma conotação política.

É preciso ressaltar duas mudanças entre 2020 e 2021. Primeiramente, a atividade de Jair Bolsonaro e seus filhos na rede diminuiu, com um menor volume de publicações em 2021, o que aponta para uma estratégia de diversificação e aposta em outras redes sociais para além do Facebook, com especial foco no Telegram. Tal fato tem relação tanto com o bloqueio das contas de Donald Trump em diferentes redes sociais, como Facebook, Twitter e Instagram, como com a remoção de páginas supostamente ligadas ao gabinete do presidente e de publicações de Jair Bolsonaro durante a pandemia, e mesmo da prisão de figuras como o deputado Daniel Silveira por ataques a ministros do STF. Assim, frente a tais entraves, o grupo se vê atualmente centrado na narrativa de haver censura à direita e aos conservadores por parte das principais plataformas de rede social, numa retórica de perseguição já utilizada em relação à grande mídia.

É necessário pensar que, acima da conquista de votos, o papel principal das redes sociais para fins políticos é a mobilização de pessoas, que acabam por atuar como voluntários e ativistas.[43] Uma vez que essas redes envolvem emoções e mudam as formas de interação e consumo de informações, percebemos que as estratégias de comunicação política no ambiente digital já apresentam grande potencial danoso para a democracia. No cenário brasileiro, no qual a inserção e mobilização das pessoas nesse ambiente, para fins políticos, deu-se através de uma construção anti-democrática e anti-política, encontrou-se um terreno fértil e cheio de oportunidades para os que buscavam alcançar o poder.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do que foi trabalhado ao longo desse artigo, alguns pontos podem ser considerados. Primeiramente, cabe ressaltar o vácuo entre a nova mobilização de indivíduos, muitos que antes encontravam-se passivos na vida política, e a capacidade de organização de alternativas políticas para fora do eixo institucional que apresentem suficiente apelo popular para criar novas soluções às falhas percebidas na democracia representativa. Ainda que tenhamos exemplos recentes de maior sucesso, como a mobilização social no Chile, essa especialmente através de movimentos feministas, que foi capaz de derrubar uma constituição da época ditatorial e trazer o povo para o centro das decisões sobre o futuro do país, contamos também com revezes, uma vez que em países com o Brasil a mobilização foi cooptada por forças anti-democráticas que se aproveitaram e alcançaram ganhos políticos a partir desse vácuo.

Percebemos que as figuras populistas que ascenderam no período tiveram capacidade de compreender o cenário de crise democrática, especialmente no que tange as instituições tradicionais de representação política e desafios socioeconômicos emergentes. Assim, obtiveram sucesso em captar a insatisfação popular e utilizar-se das ferramentas pelas quais os cidadãos passaram a expressar seu descontentamento, especialmente a internet e as redes sociais, para oferecerem-se como alternativa. Essa capacidade traduziu-se na utilização das frustações populares para a construção de discursos e narrativas muito bem elaboradas.

Saliento que devemos ter especial atenção e cuidado ao avaliarmos as ações dos novos líderes populistas. Personagens como Donald Trump e Jair Bolsonaro, em seus respectivos contextos políticos, foram subestimados pelas forças políticas de oposição quando de sua ascensão, conseguindo igualmente vender a estas suas imagens de homens simples e dar a impressão de que eram apenas figuras aleatórias a utilizar-se do ambiente digital para publicar o que queriam sem limitações. Entretanto, as redes e mecanismos por trás de ambos revelam estratégias bem construídas, financiadas, e até mesmo coordenadas, e que por trás dessas figuras existem profissionais a utilizar-se de desinformação, dados, algoritmos, entre outros elementos, para elaboradas estratégias de comunicação política, nas quais a utilização de fake news aparece como um recurso/ferramenta.

Nas eleições de 2018, o fenômeno das fake news, apesar de não ser novo, pegou a todos de surpresa pela sua dimensão e capacidade de propagação. Após isso, foi possível uma maior compreensão do seu potencial danoso, exigindo, inclusive, ajuste institucional por parte de órgãos como o Tribunal Superior Eleitoral. No contexto pandêmico de 2020, esse potencial alcançou seu limite ao resultar inclusive na morte de pessoas por razão de informações errôneas ou enganosas, muitas produzidas de forma intencional e visando batalhas discursivas e ganhos políticos. Os movimentos da rede bolsonarista mostram que encontraremos novos e grandes desafios nas eleições de 2022. A retórica de censura por parte das principais redes sociais, como Facebook, Twitter e Instagram, evidencia a estratégia já em curso de mobilizar o eleitorado para plataformas nas quais o controle sobre o conteúdo seja menor, especialmente quando já se prevê uma forte mobilização em torno de acusações de fraude eleitoral, estratégia que nos Estados Unidos foi barrada por essas grandes plataformas.

 

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