A experiência espanhola mostra que coalizões progressistas ganham força quando transformam divergência, participação social e direitos em política pública.
A Europa progressista vive sob pressão dupla. De um lado, uma extrema direita que sequestrou a palavra “liberdade” para colocá-la a serviço do capital, da fronteira fechada e da desigualdade naturalizada. De outro, uma social-democracia que, quando governa sozinha, tende a administrar o possível sem disputar o necessário.
A Espanha de Pedro Sánchez é uma das poucas experiências que tenta escapar desse dilema. Não por estar livre de contradições, mas por ter encontrado na coalizão algo mais exigente do que uma tática parlamentar: um método de governo.
No fim de 2025, Sánchez divulgou um vídeo de balanço em que listava marcas de sua gestão: aumento do salário mínimo, medidas de moradia, alimentação escolar, licenças parentais, defesa dos serviços públicos, combate ao aluguel turístico ilegal, políticas de mobilidade, a Lei ELA. O que chama a atenção não é apenas a lista, mas o critério de seleção. Para mostrar o melhor de sua administração, o presidente escolheu justamente o terreno em que a esquerda da coalizão mais pressionou.
Esse detalhe merece ser lido com cuidado.
Não se trata de diminuir Sánchez. Ao contrário. Sua força política talvez esteja em ter compreendido que, no ciclo europeu atual, uma social-democracia isolada pode vencer eleições, mas dificilmente produz sentido histórico. Para isso, precisa governar acompanhada — e tensionada — por forças com vínculos mais diretos com sindicatos, feminismos, movimentos por moradia, ecologistas, municipalistas e redes de defesa dos serviços públicos.
O ponto central da experiência espanhola é este: o melhor do governo Sánchez não nasce apenas do PSOE. Constrói-se numa arquitetura política.
Barcelona ajuda a compreender essa arquitetura. A cidade tem sido, nos últimos anos, um dos laboratórios mais sensíveis das disputas progressistas europeias: moradia, turismo, língua, municipalismo, feminismo, imigração, serviços públicos e direito à cidade se cruzam ali de forma quase física. Não são temas abstratos. Aparecem no aluguel que expulsa moradores, na loja de bairro substituída por consumo de passagem, no ônibus cheio de trabalhadores invisíveis, no conflito entre uma cidade vivida e uma cidade convertida em produto.
Nas últimas semanas, a recomposição da esquerda espanhola voltou a se expressar em atos e conversas que não cabem facilmente na oposição entre governismo e dissidência. Encontros que expressam, cada um à sua maneira, a tentativa de reorganização do campo progressista. Um deles deu nome ao que muitos tentam fazer: Un pas endavant — um passo à frente, em catalão, e também, não por acaso, um passo à esquerda. Comuns, Izquierda Unida, Más Madrid e Movimiento Sumar dividiram o mesmo palco reivindicando um lugar próprio para além de sustentação de governo e da governabilidade, mas o de motor programático das políticas e das forças capazes de empurrar o Executivo para além da prudência social-democrata.
A inquietação atravessa também setores que ficaram fora ou à margem dessa recomposição. Conversas como as que reuniram Gabriel Rufián, da Esquerra Republicana, e Irene Montero, do Podemos, sob a pergunta “Què s’ha de fer?” — o que deve ser feito? — expõem uma ferida ainda aberta: como recompor uma esquerda fragmentada, marcada por disputas internas, mas ainda indispensável para impedir que o futuro seja entregue ao bloco conservador e ultradireitista?
Houve ainda a Barcelona da Global Progressive Mobilisation, onde Sánchez buscou afirmar-se como uma das lideranças progressistas mais visíveis da Europa. A presença de Lula não foi acessória. Ele é hoje uma das poucas lideranças capazes de falar ao Norte Global sem pedir licença, vindo de um país periférico, derrotou a extrema direita nas urnas, sobreviveu à perseguição judicial e voltou ao poder conhecendo a desigualdade como experiência pessoal e na materialidade da política.
Mas havia ali uma tensão que precisa ser nomeada. A social-democracia europeia tenta reorganizar uma resposta ao avanço reacionário global e muitas vezes o faz a partir de uma gramática masculina, branca, institucional e norte-atlântica. Convida o Sul Global, mas nem sempre o reconhece como formulador. Celebra lideranças populares, mas nem sempre desloca o centro da narrativa.
Falar de democracia, clima, tecnologia e justiça social com plena consequência exigiria escutar, com mais modéstia, experiências políticas que fora do eixo europeu há décadas inventam formas de participação, resistência e reconstrução democrática. A Europa progressista gosta de convocar o mundo quando se sente ameaçada. O desafio é aceitar que esse mundo também pensa, propõe e corrige.
Barcelona, nesse sentido, funciona como espelho. Mostra uma Europa progressista que ainda resiste e busca coordenação internacional. Mas revela também as assimetrias de um campo que precisa decidir se tratará o Sul Global como convidado ilustre ou como sujeito político que formula caminhos.
A pergunta central, portanto, não é apenas quem governa a Espanha, mas que forças dão conteúdo social ao governo, que aparecem no balanço porque empurram as políticas que tornam esse balanço possível.
A esquerda que está no governo espanhol não quer derrubar Sánchez em nome de uma pureza sem maioria. Mas tampouco aceita desaparecer dentro do PSOE em nome de uma estabilidade sem conteúdo. Essa tensão é parte do método. Coalizões democráticas não eliminam o conflito, mas debatem e dão forma política.
Há alianças que apenas administram a sobrevivência. Outras conseguem transformar pluralidade em direção. Nas áreas em que mais avançou, a Espanha mostra o que acontece quando ministérios estratégicos são ocupados por uma esquerda que não deixou sua identidade do lado de fora do Estado.
O caso mais evidente é o trabalho. Yolanda Díaz, no Ministério do Trabalho, tornou-se uma das marcas mais consistentes desse ciclo. O aumento do salário mínimo — de cerca de 735,9 euros em 2018 para 1.184 euros em 2025 e 1.221 euros em 2026 —, a reforma trabalhista, a redução da temporalidade e a defesa do trabalho digno compõem uma agenda que não surgiu como concessão tecnocrática, mas como disputa política. Díaz conseguiu traduzir uma pauta de esquerda em política pública negociada, com linguagem institucional, apoio sindical e efeito direto na vida cotidiana. Quando o salário mínimo sobe, o país afirma que crescimento econômico sem recomposição salarial não basta.
Em um continente habituado a tratar a precarização como destino inevitável da globalização, a Espanha ofereceu como caminho alternativo: regulação do mercado de trabalho; fortalecimento da negociação coletiva e o salário como instrumento de justiça, não apenas como custo empresarial.
A moradia talvez seja o campo em que a contradição espanhola aparece de forma mais aguda. Sánchez incorporou a habitação como um dos pilares do Estado de bem-estar — depois da saúde, da educação, das pensões e da dependência. A formulação é poderosa em admitir a moradia como quinto pilar, isso significa reconhecer que a democracia falha quando permite que a especulação expulse trabalhadores de suas próprias comunidades.
É também nesse terreno que a esquerda à esquerda do PSOE mais pressiona o governo. Controle de aluguel, enfrentamento das plataformas turísticas, proteção de inquilinos e combate à especulação urbana vêm de movimentos por moradia, de experiências municipalistas e de uma esquerda que compreendeu que a desigualdade contemporânea se organiza não apenas no salário, mas também no metro quadrado.
Pablo Bustinduy, no Ministério de Direitos Sociais, Consumo e Agenda 2030, expressa bem essa mudança de linguagem: consumo, cidade e moradia deixam de ser temas separados. A regulação de plataformas como o Airbnb dialoga diretamente com a crise habitacional. O turismo passa a ser examinado também por seus efeitos sobre bairros, aluguéis, vizinhanças e permanência.
Essa questão interessa a países como Portugal e Itália — e a cidades brasileiras pressionadas por gentrificação, turismo predatório e financeirização urbana. A habitação já não é apenas uma política setorial. É uma fronteira da democracia. Quem não consegue morar perto de onde trabalha, quem é expulso de seu bairro, quem vê sua renda capturada pelo aluguel, vive uma forma cotidiana de desapropriação política.
Na saúde, Mónica García leva ao governo uma disputa que ultrapassa a gestão sanitária: a defesa de um sistema público contra a privatização do cuidado. Médica e liderança de Más Madrid, ela representa uma tradição que entende saúde como direito e inteligência coletiva. A pandemia demonstrou que sistemas públicos fortes não apenas salvam vidas; produzem confiança, conhecimento e capacidade de resposta. Quando a esquerda sanitária espanhola fala de atenção primária, saúde mental e fortalecimento do sistema nacional, fala também de soberania democrática sobre o cuidado.
E esse campo, o dos cuidados, também entrou na disputa com medidas concretas: ampliação das licenças parentais para 19 semanas por progenitor, 32 semanas no caso de famílias monomarentais, Lei ELA, políticas de dependência e debate sobre corresponsabilidade. Trata-se de deslocar para o centro do Estado aquilo que por décadas foi empurrado para dentro das casas, quase sempre sobre os ombros das mulheres.
Essa agenda carrega a marca do ciclo feminista aberto por Unidas Podemos: direitos reprodutivos, licença menstrual, consentimento, violência sexual e autonomia corporal passaram a ocupar outro lugar na política espanhola. Houve conflitos, erros e disputas duras. Mas o vocabulário público mudou.
Ernest Urtasun, no Ministério da Cultura, acrescenta outra dimensão à arquitetura. Cultura, em sua formulação mais séria, não é ornamento nem vitrine de país. É direito, território, memória, diversidade linguística e disputa democrática. Urtasun chega a essa agenda não como gestor lateral, mas como liderança política formada no cruzamento entre municipalismo, ecologia, Europa e direitos culturais. Sua atuação tem ampliado a ideia de acesso à cultura para além do consumo de bens culturais, aproximando-a de participação, pertencimento, trabalho digno e reconhecimento. Nas costuras recentes entre Brasil e Espanha, especialmente no diálogo com o Ministério da Cultura brasileiro, aparece uma diplomacia cultural mais interessante: menos baseada na exportação de imagem nacional e mais atenta à cooperação, à sustentabilidade, à economia criativa e aos direitos culturais. Em tempos de extrema direita, a cultura torna-se um dos campos centrais da batalha política, porque é ali que se decide que histórias uma sociedade conta sobre si mesma, quem pertence à comunidade nacional e quais formas de vida merecem reconhecimento.
Vista em conjunto, a experiência espanhola oferece uma imagem mais complexa do que a velha oposição entre moderação e radicalidade. O governo Sánchez é progressista quando — e na medida em que — incorpora pressões de forças situadas à sua esquerda. A social-democracia oferece estrutura institucional, capacidade de governo e projeção internacional. A esquerda da coalizão oferece densidade programática, conexão social e disposição para tensionar os limites do possível.
A força de uma democracia plural está justamente em transformar divergências em soluções. Coalizões vivas obrigam partidos, movimentos e governos a testar seus limites, negociar prioridades, corrigir rotas e inventar caminhos que uma maioria homogênea dificilmente produziria. A inovação política nasce muitas vezes desse atrito: da necessidade de governar sem apagar diferenças, de construir políticas públicas sem exigir unanimidade, de manter aberto o conflito sem convertê-lo em paralisia. Quando a coalizão tem programa, densidade social e disputa real de conteúdo, ela deixa de ser apenas arranjo de sobrevivência e se torna uma das formas mais sofisticadas da democracia.
O Brasil conhece esse dilema. O governo Lula também governa em coalizão, sob críticas da esquerda, pressões do mercado, ofensivas da direita e um Congresso de maioria conservadora. A experiência brasileira mostra que derrotar a extrema direita nas urnas é condição indispensável, mas não encerra a disputa. Depois da eleição, começa outra batalha: transformar sobrevivência democrática em entrega social.
É nesse ponto que a comparação com a Espanha pode ser útil, sem ingenuidade. Nenhum país exporta modelos prontos. Mas democracias progressistas podem intercambiar formas de construir maioria, proteger direitos, enfrentar o rentismo urbano, fortalecer serviços públicos e impedir que a extrema direita monopolize a ideia de futuro.
O Orçamento Participativo de Porto Alegre — nascido no Brasil pós-ditadura e difundido pelo mundo como uma das experiências mais importantes de democracia urbana — ganhou em Barcelona, no ciclo municipalista de Ada Colau, uma nova tradução institucional: participação digital, direito à cidade, escuta territorial e disputa sobre o destino do orçamento público. Essa ponte não é apenas histórica. Ela sugere algo para o presente: enquanto a extrema direita globaliza ressentimentos e fantasias autoritárias, as esquerdas precisam internacionalizar também suas práticas democráticas. Há, nesse caminho entre Porto Alegre e Barcelona, uma história ainda por contar — e ela começa no Rio Grande do Sul.
A experiência espanhola não diminui Sánchez; amplia o que se espera de um governo progressista. Para ser maior do que seu próprio partido, um governo precisa aceitar ser atravessado por forças que o empurram além da prudência.
Trabalho, moradia, saúde pública, cultura, cuidados e participação popular não são anexos programáticos. São as colunas materiais de uma democracia. Erguê-las é urgente — e é também apenas o começo. Porque quando o salário chega, quando a moradia não ameaça, quando o filho adoece e há médico, quando a creche existe e a mãe pode trabalhar sem culpa, quando a cidade ainda tem arte e a rua ainda tem vizinho, aparece aquilo que os direitos, no fundo, sempre prometeram: a possibilidade de uma vida que não seja apenas suportada. A direita oferece ressentimento como combustível para o futuro. A esquerda, quando é esquerda de verdade, oferece outra coisa: a ideia, improvável e necessária, de que o mundo pode ser mais do que ele é.
Crédito da foto de abertura: Borja Puig de la Bellacasa | la Moncloa, Madrid 23/12/25
