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PANDEMIA: uma visão ecológica (pura)

Antonio Libório Philomena

Oceanógrafo e Doutor em Ecologia. Membro expert independente Harmony with Nature - ONU

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Predadores são animais relativamente grandes que comem suas presas de fora para dentro. Patógenos (agentes causadores de doenças, como os vírus) são criaturas relativamente pequenas que comem suas presas de dentro para fora (Quammen, 2020)

O objetivo deste texto é adicionar outra faceta explicativa da pandemia do Sars-CoV-2 de tal maneira a não incorrermos nestes mesmos erros que lhe deram origem. O termo sistêmico “sindemia” (Singer, 2009) também aparece no texto, substituindo, quando necessário, a pandemia, pois utilizaremos limites de análises mais amplos que a ciência ecológica nos permite.

Cabe sempre lembrarmos um conceito básico de importância fundamental, mas que é deturpado constantemente:  parte principal do sistema todo (planeta Terra) não é a economia, nem a tecnologia, muito menos a sociedade humana – é a Natureza (ou os ecossistemas interligados). Tão básico e tão difícil de aceitar.

A Figura 1, a seguir, retrata resumidamente as diferenças:

Interessante, pois a sindemia do popularmente denominado coronavírus (CoV-2019) é mais um caso comprobatório de que a conjuntura da Fig. 1B é errada na origem. As provas (fatos) estão distorcidas nas mídias, inclusive porque, quando analisamos pelo viés da pandemia, forçosamente limitamos a abrangência de fatores de dentro do sistema.

Quem imaginaria (dentro da visão 1B) que algo invisível, minúsculo, sem marca registrada, nem representante, desorganizaria toda a economia, a sociedade e a tecnologia em meses? Não foi necessário nenhum míssil, nem milhares de soldados com laser e drones. Mesmo assim já são milhões de mortos e trilhões de dólares despendidos em 2020 (e outros trilhões lucrados pela e na crise, é preciso ponderar). Notar que não existem ainda perspectivas de término dessa pandemia, quanto mais a sindemia. Cabe aqui um detalhe do impacto sistêmico dessa sindemia: nem a Antártica está livre do coronavírus, pois já existem 36 casos na Base chilena de pesquisas, contrapondo opiniões sobre os limitantes de temperatura, que o vírus teria.

A Figura 1A é bem diferente e ecologicamente pode nos ajudar a entender o que está acontecendo e a evitar outras desordens sistêmicas com consequentes pandemias.

John Burdon Sanderson Haldane (1892-1964) é um bom início para nossa ecoanálise. Geneticista escocês, já em 1926 deu um aviso sobre algo muito importante na Natureza: tamanho não é documento. Em um trabalho incrível de oito páginas denominado “Em estar do tamanho certo” (tradução livre), explicou que na Natureza existem limites claros e de sobrevivência para tudo e todos. Inclusive para nós! Hoje podemos afirmar que tudo e todos que passarem dos limites sofrerão as consequências em diferentes maneiras e graus.

A mensagem de Haldane ajuda a entendermos que a Natureza na Figura 1 é toda conectada e complexa, com unidades de todos os tamanhos formando uma unidade. Em geral, conhecemos bem as unidades grandes, como baleias, ursos, dinossauros, sequoias, figueiras e baobás. Das unidades pequenas, quase nada conhecemos, apesar da importância ecológica vital, como o fitoplancton, o rizobium e a salmonela. Na Figura 1ª, as setas bidirecionais significam que uma unidade depende da outra, e isso mantém a integridade e interdependência do todo, apesar das oscilações naturais e artificiais (antrópicas). Quando não conhecemos as conectividades, ficamos num potencial de risco maior, e aí estaremos a mercê de cenários ecológicos que vão de reorganizações locais até pandemias planetárias com virulência devastadora (um animal infectado por RNA vírus pode ter um quatrilhão de vírus em seu organismo e produzir até 100 mil cópias em dez horas (Ujvari, 2014).

Esses arranjos conectados na Figura 1A são frutos de milhões de anos funcionando à base de energia solar, das marés e geológica. Nesse tempo todo, emergiu um sistema que prosperou por conta da diversidade, seja ela biológica, tecnológica ou cultural, que não são estáticas, nem compartimentadas. Bem antes pelo contrário, o equilíbrio tem variações (equivalentes a pulsos), sendo que alguns nos afetam fortemente como esta pandemia. Dentro da Natureza esse pulso virótico é apenas mais um dos vários que constantemente ocorrem. Alguns pulsos viróticos transbordam como se fosse um reservatório. A diversidade dos vírus é imensa na Natureza, e altamente desconhecida pela ciência. A própria diversidade dos ecossistemas íntegros limita a distribuição de todos os organismos. Pode acontecer que uma espécie tenha condições ambientais propícias para se reproduzir exponencialmente, crescendo fora dos limites naturais. O ecossistema sofrerá arranjos temporários rápidos ou longos e se tiver resiliência (capacidade de retornar ao estado inicial depois de desorganizações), poucas marcas restarão. Como exemplo: os banhados têm alta resiliência, enquanto as monoculturas têm baixa ou nenhuma.

No caso específico da pandemia do Sars-CoV-2 vírus, a situação tem particularidades notáveis. Primeira, ele é um puro RNA, ou seja, construído de elemento celular básico de replicagem, e uma especialidade incrível para penetrar nas células dos hospedeiros. Também, é pura informação concentrada, não precisando de corpo, de cérebro, de membros e de coração para agir. No planeta-vírus, isso tudo é dispensável e ineficiente.

Faz anos que na ciência ecológica ficou provado o valor da biodiversidade. Não só da Floresta Amazônica, mas igualmente dos vírus. O conjunto todo, a megabiodiversidade do planeta, é a razão de sobrevivência de todos os organismos, e por isso ultrapassa em valores todas as economias dos países juntos e o sonho do homem de ir ao espaço.

O Sars-CoV-2 precisa de uma oportunidade e um ou mais hospedeiros. Rob Wallace (2020) escreveu:

“As origens locais da Covid-19 ainda são alvo de controvérsias, mas a genética do vírus Sars-CoV-2 mostra que ele é um rearranjo de um coronavírus de morcego com uma cepa de pangolim que posteriormente sintonizou-se com o sistema imunológico humano, durante ou pouco antes de Wuhan”.

David Quamman (2020) completa:

“O principal é que quanto mais oportunidades os vírus têm de saltar para novos hospedeiros, mais oportunidades terão de passar por mutações quando encontrarem novos sistemas imunológicos. Suas mutações são aleatórias, porém frequentes, combinando nucleotídeos de inúmeras novas maneiras. Assim, mais cedo ou mais tarde um desses vírus acaba tendo a combinação certa para se adaptar ao seu novo hospedeiro.”

Resumindo, existem inúmeras reservas de organismos “ligados” aguardando situações e oportunidades para se replicarem dentro de um hospedeiro, que servirá de mensageiro ampliando a área de dispersão. Devido à mobilidade global, humanos são ótimos disseminadores entre si, pois vivem em grupos, têm pouca higiene e desconhecem a ecologia microbiológica. Nas palavras de Quammen (2020): “nós oferecemos um cem número de oportunidades”. Prova é que, agora, o Sars-CoV-2, espalhado por nós no planeta inteiro, iniciou as mutações bem no tempo em que iniciamos a vacinação. Em termos humanos, podemos afirmar que o vírus da CoVid-19 “consegue mudar o pneu com o carro andando”. Isso é uma lei básica da ecoevolução: quando novos recursos estão disponíveis, aparecem inovações que se espalham inicialmente com a diversidade baixa. Depois uma diversidade mais eficiente aparece ocupando terrenos maiores e tempos longos. Se as novas cepas virais tiverem replicagem rápida, surgem ainda “derrames” e atividades sindêmicas progressivas.

Do ponto de vista do “interesse ecológico”, o que proporcionou oportunidade para o Sars-CoV-2 sair dos seus limites naturais? Cientistas têm várias hipóteses, que tendem a convergirem para uma palavra-chave: mudanças.

Nunca se viu algo semelhante. A Natureza é espoliada em velocidade alarmante. Nem as mídias instantâneas digitais conseguem se atualizar. O Antropoceno é agora. Nada escapa. Negacionistas abundam. Os fragilizados sofrem e pagam mais. Tudo é negociado. Exemplos são desanimadores. Precaução, só no papel. As judicializações são resolvidas decenalmente, enquanto as multas são tímidas e amenizadoras..

Quammnen (2020) reforça o parágrafo acima: “deveríamos entender que esses surtos recentes de novas doenças zoonóticas, bem como a recorrência e a disseminação de outras mais antigas, fazem parte de um padrão maior, e que a humanidade é responsável por gerar esse padrão”.

Não há mais tempo para dúvidas e esperas, pois as provas e fatos do quanto impingimos a Natureza está chegando ao ponto-limite para o aquecimento global; o envenenamento sistêmico por agrotóxicos; o desmonte de florestas e de paisagens, inclusive pela mineração; o uso de fontes de energia fóssil; a poluição dos oceanos pelos plásticos (pois reciclamos apenas 7% deles); alimentos transgênicos e superprocessados; destruição total de rios e lagos; urbanização massiva e produção de resíduos desregradamente. Apesar dessa lista não estar completa, a complexidade de impactos simultâneos aos ecossistemas, e consequentemente à sociedade, nos deixa numa situação de emergência, pois por enquanto estamos “pagando para ver”. Esse comportamento é semelhante ao do vírus Sars-CoV-2: não tem propósitos, tem apenas resultados (parafraseando Quammen, 2020).

Hoje um caminho promissor para evitar o aumento de sindemias e catástrofes seria repensar a cultura e a economia em harmonia com a Natureza. O desastre que vivenciamos é exatamente ambicionar que a Natureza se adapte à nossa cultura e economia.

Bem no início do texto reforçamos que o Planeta é um todo, onde a diversidade das conexões nos mantém como parte natural da fauna, pelo menos nos últimos 120 mil anos (considerando apenas o homo sapiens). Existe um arcabouço de leis que fazem a interface com o conhecimento ambiental, reconhecendo e garantindo a relação Ser Humano-Natureza. A evolução das leis segue os direitos e deveres humanos, que se apresentam nas novas formulações, sejam nacionais ou internacionais. Pode-se afirmar que o Direito Humano ao meio ambiente iniciou-se claramente no século XX, e progride no século XXI. Assim, desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, passando pelo Direito Ambiental Internacional e pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos, chegou-se ao Direito Humano Ambiental. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 é clara ao assegurar os direitos humanos à vida e ao meio ambiente ecologicamente sustentável. Cabe sinalizar pela coevolução das Leis que compõem a procura da harmonia planetária, citando também o Direito dos Animais e o Direito da Natureza.

Tão básico e tão difícil de aceitar.

 

Literatura citada

Quammen, D. 2020. Contágio: infecções de origem animal e a solução das pandemias. Companhia das Letras. São Paulo. 543p.

Singer, M. 2009. Introduction to syndemics: a system approach to public and community health. Jossey-Bass. San Francisco.

Ujvari, S. 2014. A história da humanidade contada pelos vírus. Ed. Contexto. São Paulo. 202p.

Wallace, R. 2020. Pandemia e Agro-Negócio. Ed. Elefante. São Paulo. 600p.