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Fake news: um ponto de ebulição social

Mauricio Moura

Doutor em Economia e Política do Setor Público pela FGV-SP, Professor da Universidade George Washington e fundador do IDEIA

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Os vulcões são estruturas geológicas (massas rochosas fundidas por altas temperaturas) que correspondem a uma proeminência na superfície da terra, mais especificamente uma abertura no solo através da qual o material magnético é expelido. Os vulcões podem surgir através do movimento entre placas tectônicas, que, quando colidem, provocam elevações na superfície. A distribuição dos vulcões no mundo está diretamente relacionada com a distribuição das placas tectônicas.

O Brasil moderno vive em constante ebulição política, econômica e social. As placas tectônicas se movem com a intensidade da polarização e politização das questões do dia-a-dia. Na superfície da alta temperatura da opinião pública brasileira surge um material mágico já amplamente conhecido como “fake news” ou notícia falsa.

A academia, em linhas gerais, define “fake news” como um tipo de desinformação online, com conteúdo total ou parcialmente falso, criada intencionalmente para enganar e/ou manipular um determinado público, por meio de um formato que imita uma notícia ou reportagem. Tais informações falsas, que podem ou não estar associado a acontecimentos reais, mantém uma estrutura oportunista para atrair a atenção do leitor e persuadi-lo a acreditar na mentira. Todas tem objetivo de obter mais cliques, compartilhamentos, maior receita publicitária e/ou ganho ideológico.

É razoável supor que as “fake news” não sejam um problema do século 21. Distorcer fatos, dados / informações tendenciosas e criar argumentos falsos aplicados para desacreditar valores e crenças sempre fez parte da sociedade. Por outro lado, a escala do fenômeno atual o torna muito mais complexo socialmente.

Na França do século 17, um jornal chamado “Canard” vendia folhetins de notícias falsas nas ruas de Paris (há registros também que notícias falsas também se espalharam na Alemanha no século 19 via periódicos impressos).

Nesse contexto social, há uma divisão histórica das “fake news” em quatro períodos: era da pré-impressão, anos pós-impressão, mídia de massa e era da internet. Os pesquisadores dessa história apontam que, no período de pré-impressão, a notícia falsa era basicamente a essência da informação (onde o conhecimento também era extremo poder) e muito concentrado nas mãos de poucos. O “Canard” francês mencionado acima é um exemplo da era da pós-impressão, sendo um primeiro esboço de escala. Nos anos da mídia de massa, o programa de rádio “Broadcasting the Barricades” transmitia notícias falsas como uma paródia em 1926, alarmando a população desinformada e disseminando mentiras via as ondas do rádio.

Vale mencionar também, na era digital (hoje), notícias falsas foram espalhadas e amplamente compartilhadas em diversos pleitos eleitorais pelo mundo. Um dos episódios mais conhecidos foi nos Estados Unidos durante a eleição presidencial de 2016. Tal será eternamente lembrado como a “Conspiração da Pizzagate”. Espalhou-se a “informação” que a candidata democrata Hillary Clinton praticava atos pedófilos em uma pizzaria de Washington, DC. Outra falsidade de grande relevância, na época, foi o endosso do Papa à candidatura de Donald Trump. Desde então as “fake news” passaram a ser oficialmente parte das campanhas eleitorais (para a infelicidade de todos). Candidatos(as), imprensa e eleitores se tornaram reféns da oferta, volume e escala das “fake news”. Energia, recursos e tempos são gastos desproporcionalmente para identificar, responder e se defender de “fake news”.

Em outras palavras, nunca antes a lava produzida por notícias falsas teve tamanha presença na crosta da imaginação da opinião pública e dos pleitos eleitorais.

Em julho de 2021, o Instituto IDEIA realizou uma pesquisa telefônica nacional com uma amostra representativa de 2.000 entrevistados. Os resultados corroboram o estado de ebulição do tema na vida cotidiana brasileira e projetam uma preocupação com o futuro de política e das eleições.

Para 8 em cada 10 brasileiros, notícias falsas (“fake news”) é um problema sério. Como pesquisador, estou impressionado com o crescimento deste tema na mente do público. Esta percepção da seriedade é maior entre aqueles sem religião e aqueles com educação superior (88%), mas permanece significativamente alta entre todos os grupos socioeconômicos e todas as regiões. Houve uma erupção de notícias falsas na opinião pública.

A pandemia evidenciou ainda mais o problema. Durante a maior crise do século, muitos brasileiros não consideraram confiáveis as fontes oficiais (45% dos entrevistados disseram não confiar nelas), enquanto foram bombardeados pela desinformação na internet. Em agosto de 2021, por exemplo, o Facebook derrubou uma rede de perfis que espalhou o negacionismo sobre vacinas, inclusive no Brasil.

Tais comportamentos são responsáveis pela intensificação da aversão à política institucional ou partidária. Assim, segundo a pesquisa, 67% da população diz estar interessada em política (de “às vezes” interessada a “extremamente” interessada). No grupo com educação superior, a proporção de pessoas interessadas sobe para 77%.

Por outro lado, apenas um pouco mais da metade dos brasileiros (54%) diz ter alguma posição política, seja de esquerda, direita ou centro. Esquerda e direita estão empatadas em 20% dos eleitores cada, e o centro vem em segundo lugar com 10%. O grau de desinteresse na política cresce com a avalanche de “fake news”. Importantes eleições nacionais recentes (como Peru, Canadá, Alemanha, Rússia e Equador) mostraram a dificuldade de mobilização de eleitores. Os índices de abstenção se acentuam enquanto as campanhas vivem em embate com as “fake news”.

Neste contexto polarizado, os mais informados tendem a se posicionar mais politicamente. Do grupo que diz estar “muito interessado” em consumir notícias, a média daqueles que definem uma posição política é maior do que a média nacional (65%) – sejam da esquerda ou da direita. Ou seja, mais “polarizado”, mais interessado em notícias que reafirmem seu viés de convicção.

O fato é que a isenção (ou generalização ou mesmo bom senso) não é comercialmente viável no mundo digital. As pessoas consomem cada vez mais informações de nicho. Aqueles que afirmam ser mais politizados acabam sendo aqueles que também alimentam o viés da auto-afirmação, interessando-se apenas pelo que confirma o que eles pensam. E assim se perpetua um ciclo que é prejudicial ao fluxo racional de informações e ao debate público respeitoso.

Para piorar a situação, a pesquisa mostra que 21% dos brasileiros admitiram ter alguma vez compartilhado uma notícia política, embora suspeitassem que a informação não era verdadeira.  Um número que é bastante superlativo em si mesmo e com potencial para ser ainda maior (porque é razoável pensar que muitas pessoas compartilham notícias falsas e não as admitem).

Nesse contexto, a psicologia pode ajudar a abordar duas questões importantes: por que as pessoas acreditam em notícias falsas e por que compartilham notícias falsas?   Em primeiro lugar, psicólogos empregam o princípio de prazer de Freud e sua luta constante contra o princípio de realidade. Os pesquisadores observam que talvez histórias inventadas simplesmente nos entretêm mais. Como a fofoca, tais anedotas geralmente são excitantes e sensacionalistas. O estímulo de notícias falsas satisfaz o desejo de aliviar o fardo de nossas realidades vividas. Em um nível subconsciente mais profundo, diversos estudos confirmam que as pessoas são tendenciosas do ponto de vista cognitivo, concordando com informações falsas, desde que confirme opiniões e crenças pré-existentes. Diferentes psicólogos renomados dizem que quando decidimos que uma história tem fidelidade, não estamos apenas afirmando nossas crenças compartilhadas, mas também nos abrindo para o pensamento de que esses valores acabarão por influenciar nossas crenças e valores. Esse é um risco que as pessoas correm ao compartilhar notícias falsas com um viés de confirmação significativo. Sobre a segunda questão mencionada acima, a literatura relevante mostra que busca por aprovação social ou ambição de atrair atenção, conteúdo com impacto emocional partido e crenças ideológicas ou desejo de informar “amigos” são algumas das principais motivações do usuário para compartilhar notícias. Além disso, as pessoas que compartilham conscientemente notícias falsas podem fazê-lo simplesmente por diversão e para criar o caos. Além disso, outra linha de pesquisa sociológica aponta que o ser humano se interessa por assuntos polêmicos, surpreendentes ou bizarros, que são os que motivam uma maior participação dos usuários. As notícias falsas são compostas principalmente de manchetes sensacionalistas e polêmicas, e sua linguagem emocional pode contribuir para uma ampla disseminação de conteúdo que incentiva sentimentos fortes (positivos e negativos), como felicidade, entusiasmo ou raiva. Tais tem maior probabilidade de compartilhamento.      Um componente psicológico relevante é o “missing out” (medo de ficar de fora), relacionado a um sentimento de ansiedade ou reação psicológica que motiva o usuário a tentar reforçar sua popularidade em determinado grupo, com o objetivo de obter aprovação e se sentir incluído. O “missing out” pode tornar as pessoas mais vulneráveis ​​ao consumo de fofocas

Portanto, as notícias falsas se tornaram um vulcão incontrolável nas ondas agitadas da opinião pública brasileira, e o futuro não será simples. As tecnologias continuarão a avançar, as “deep fakes” (uma técnica que utiliza recursos de inteligência artificial para substituir rostos em vídeos e imagens a fim de chegar o mais próximo possível da realidade) ganharão espaço e não vemos sinais de resfriamento da temperatura política que acende este processo. Muito pelo contrário.

Assim, resta aos brasileiros se tornarem mais bem informados e refletirem profundamente antes de compartilhar conteúdos falsos. As eleições de 2022 no Brasil serão um grande teste para o bom senso nacional. Torcemos ainda que em 2022 e sempre, a educação seja o gelo capaz de anestesiar a lava da desinformação.