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A cura

Carine Bueira Loureiro

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Há pouco mais de três meses, fomos acometidos, no Brasil, pela pandemia que se avizinhava e já acarretava prejuízos às vidas de pessoas de países da Ásia, da Europa e da América do Norte. Em poucos dias, nossas vidas mudaram por completo. Não só as nossas conversas em família, os grupos de WhatsApp, as redes sociais, as mídias em geral foram monopolizadas por algo invisível, um vírus; mas nossos modos de viver foram, de alguma forma, colocados em suspensão em nome da sobrevivência. Há, sem dúvida, ganhos, mas também muitas perdas em tudo o que estamos vivendo.

Talvez, mais desafiador do que o necessário isolamento social, seja percebermos e levarmos adiante, para depois da superação da pandemia, a necessidade de cuidarmos uns dos outros, embora muitos de nós já tenhamos compreendido que a própria sobrevivência depende do cuidado para com o outro. E o desafio, neste caso, não está em cuidar do nosso familiar idoso, ou de quem é do grupo de risco, mas em cuidar da diarista, do catador de recicláveis, do guarda, do presidiário, do mendigo, de todos aqueles que não são os nossos queridos, mas que estão conectados a nós pelo simples fato de sermos todos humanos. Infelizmente, há quem ainda duvide das Ciências e ache que o coronavírus é uma invenção comunista, que todos vamos morrer e que, portanto, antecipar esse dia não faria diferença, ou que certo “histórico de atleta” seria o suficiente para evitar um acometimento pela Covid‑19. Estes últimos, que creem nas informações distorcidas, além da pandemia, parecem ter sido atingidos também por um tipo de epidemia, a da informação falsa.

A epidemia do compartilhamento de informações falsas — as fake news —, tal qual a pandemia do coronavírus, precisa do empenho coletivo para ser combatida, antes que as proporções de devastação, que já ameaçam a saúde democrática do Brasil, possam ser irreversíveis. Assim como a pandemia, a epidemia digital também nos acomete, enfraquece o Estado e a Democracia, põe em xeque a credibilidade na Ciência, destrói as relações humanas e, no limite, coloca a vida em risco. Assim como o isolamento social é o único remédio, até o momento da escrita deste ensaio, para que o vírus causador da Covid-19 não se alastre, a vacina para a epidemia das fake news é o conhecimento. O que pode ser surpreendente, para alguns, é que o conhecimento é a condição necessária para nos curarmos tanto de uma quanto da outra doença. E é aqui que a Educação entra.

Quando admitimos que é pelo conhecimento científico que poderão ser traçadas as estratégias que flexibilizarão o isolamento social, que serão definidos os protocolos de tratamento e os remédios para a cura da Covid-19, bem como para a vacina que nos tornará imunes ao vírus, entendemos que os alicerces que sustentam tudo isso está na Educação. São os investimentos e a valorização da Educação Básica escolarizada — e aqui a referência é exatamente ao tipo de educação que só é possível de acontecer em uma instituição muito específica, chamada de escola, com todas as críticas e ponderações que possamos ter em relação a ela — que poderão criar as condições de formação de sujeitos mais reflexivos, que sabem e aceitam conviver com a diferença, capazes de pensar as relações humanas e as transformações do mundo.

Com relação ao combate à pandemia, a educação já demonstrou que é capaz de dar respostas rápidas. Cada um de nós pode ter diferentes opiniões sobre como as escolas têm conduzido esse processo, e essas opiniões, inclusive, são instáveis conforme o isolamento social avança. No entanto, não se pode negar que, ao seu modo, dentro das especificidades de uma instituição e de outra, cada escola tem procurado fazer o seu melhor. As Ciências Humanas — sim, porque, ao contrário do que alguns possam imaginar, as Humanidades também fazem pesquisa e produzem Ciência — não se eximem de buscar respostas para a forma como os comportamentos humanos têm se apresentado no transcurso da pandemia; apresentam dados sobre as situações das escolas e suas populações mais vulneráveis; propõem soluções pedagógicas para tornar o momento o mais leve possível, tanto para os estudantes quanto para as famílias.

É a revanche do conhecimento! Só sairemos da pandemia e só nos curaremos da epidemia digital com a valorização e a assimilação daquilo que a escola tem condições para fazer: formar intelectualmente os sujeitos. E é na escola, na educação escolarizada, que se encontram as bases que tornam a Ciência possível. É a Literatura, a História, a Geografia, entre outras áreas, que nos e dão ferramentas para aprender sobre o mundo e as relações humanas. A Arte modifica a nossa forma de olhar e nos sensibiliza para o ouro. A escola é um espaço de construção coletiva; possibilita espaços de convívio e de cultivo das relações que estão para além das convicções familiares. Se o isolamento social pode ser uma medida paliativa para sobrevivermos ao coronavírus, não há nada que nos separe da comunicação digital. Portanto, o conhecimento é a única forma imunização para a epidemia de informações falsas.

 

O texto foi publicado no jornal Sul21 dia 16 de junho de 2020,
https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2020/06/a-cura-por-carine-bueira-loureiro

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